02:59 - Domingo, 20 de Setembro de 2026

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A utilidade silenciosa do sofrimento

Data da Publicação:

31/03/2026

Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero

Não gostamos de sofrer. E, se formos sinceros, organizamos boa parte da vida tentando evitar qualquer forma de dor. Buscamos relações que prometem segurança, trabalhos que tragam reconhecimento, rotinas que ofereçam estabilidade emocional. Ainda assim, o sofrimento insiste em aparecer, às vezes repetido, às vezes disfarçado, mas quase sempre carregado de uma estranha familiaridade.
Talvez a pergunta não seja apenas “como acabar com isso?”, mas “por que isso continua acontecendo?”.
Existe algo desconcertante na repetição. Pessoas diferentes, mesmas frustrações. Contextos distintos, idêntica sensação de abandono. Novas promessas, velhas decepções. Pode ser desconfortável admitir, mas nem todo sofrimento é fruto exclusivo das circunstâncias externas. Ela pode ser a expressão de conflitos internos que ainda não conseguimos nomear.
Nem sempre queremos aquilo que dizemos querer. Nem sempre escolhemos guiados apenas pela razão. Há desejos que contradizem nossos discursos, expectativas que herdamos sem perceber, culpas que operam em silêncio. Quando ignoradas, essas forças internas encontram outras maneiras de se manifestar e, frequentemente o fazem por meio do sofrimento.
Vivemos numa época que vende a ideia de felicidade contínua. Qualquer tristeza parece sinal de fracasso pessoal. Mas eliminar a dor a qualquer custo pode nos impedir de compreender sua mensagem. Fugimos de relacionamentos difíceis, trocamos de emprego, mudamos de cidade, e ainda assim algo retorna. Talvez porque a questão não estivesse apenas “fora”.
Isso não significa romantizar a dor ou defender que se deva permanecer em situações prejudiciais. Significa reconhecer que o sofrimento pode ter uma função: revelar incoerências, apontar excessos, denunciar silêncios internos. Ele pode sinalizar que estamos vivendo segundo expectativas que não são nossas, que estamos sustentando papéis pesados demais ou tentando atender padrões que nos sufocam.
Toda dor carrega uma pergunta. O problema é que preferimos a resposta pronta à investigação paciente. Queremos alívio, não reflexão. Mas o alívio apressado, muitas vezes, adia o entendimento.
Talvez amadurecer emocionalmente tenha menos a ver com evitar o sofrimento e mais com escutá-lo de forma honesta. Perguntar-se: o que está se repetindo? Que padrão estou mantendo? O que essa situação desperta em mim que já conheço de outros tempos?
Em vez de tratar o sofrimento como um erro a ser corrigido imediatamente, podemos encará-lo como um sinal de que algo em nossa história precisa ser reorganizado. Nem toda dor tem propósito grandioso. Mas toda dor pode ser oportunidade de consciência.
E consciência, ainda que às vezes doa, quase sempre liberta.

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