Maio chega com vitrines delicadas, campanhas emocionantes e um convite quase automático: celebrar o Dia das Mães. Para muita gente, é um momento de carinho, encontros e lembranças boas. Mas há um outro lado, menos visível, que raramente ganha espaço, o de quem atravessa a data com um aperto no peito, um silêncio difícil ou até um certo incômodo que nem sempre consegue explicar.
A relação com a mãe, ou com quem ocupou esse lugar, costuma ser uma das mais marcantes da vida. É ali que começam as primeiras experiências de cuidado, de presença, mas também de falta, frustração e desencontro. Por isso, não é estranho que uma data como essa revolva sentimentos antigos, às vezes contraditórios.
Existe uma expectativa forte de que o Dia das Mães seja sempre feliz. Que haja gratidão, proximidade, amor sem ruídos. Mas nem toda história segue esse roteiro. Há quem tenha uma relação distante, conflituosa ou marcada por mágoas. Há quem sinta que nunca correspondeu ao que era esperado. E há também quem simplesmente não tenha mais a mãe por perto e precise lidar com a ausência em meio a tantas mensagens de celebração.
Nesses casos, o desconforto pode vir acompanhado de culpa: “eu deveria estar feliz”, “eu deveria sentir diferente”. Como se só houvesse uma forma legítima de viver a data. Mas a verdade é que os vínculos reais são mais complexos do que as propagandas mostram. Eles carregam afeto, sim, mas também falhas, limites e histórias que nem sempre foram fáceis.
Outro ponto que chama atenção é como o consumo entra em cena. Presentes, almoços especiais, surpresas. Tudo isso pode ser uma forma bonita de demonstrar carinho. Mas, às vezes, também vira uma tentativa de compensar o que não se resolve com objetos: distâncias emocionais, dificuldades de diálogo, culpas antigas. Nem sempre dá para “comprar” aquilo que falta.
Falar sobre isso não tira o valor da data. Pelo contrário, torna tudo mais honesto. Permite que o Dia das Mães seja vivido de diferentes maneiras, com alegria, com saudade, com ambivalência ou até com certa reserva. Cada história tem seu peso, seu ritmo, seu jeito de existir.
Talvez o mais importante seja abrir espaço para se perguntar, sem tanta cobrança: o que essa data desperta em mim? E aceitar a resposta que vier, mesmo que ela não combine com o que se espera.
No fim, reconhecer que nem tudo é perfeito pode ser um gesto mais verdadeiro do que qualquer celebração idealizada. Porque relações reais não cabem em moldes prontos e… tudo bem.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero