O mês de maio ganha, a cada ano, um significado que vai além das datas comemorativas. O Maio Laranja é um chamado coletivo para olhar de frente uma realidade difícil: a violência sexual contra crianças e adolescentes ainda acontece, muitas vezes de forma silenciosa, dentro de ambientes que deveriam ser de proteção.
Não é um tema confortável, talvez por isso mesmo seja tão frequentemente evitado. Falar sobre violência sexual na infância mexe com medos profundos, rompe a ideia de segurança familiar e confronta a crença de que “isso acontece longe”. Mas os dados e os relatos mostram o contrário: na maioria dos casos, o agressor é alguém conhecido da vítima, alguém que circula no cotidiano, que ocupa um lugar de confiança.
O silêncio, nesse contexto, não é apenas ausência de fala. Ele pode aparecer como negação, minimização ou dificuldade de escuta. Muitas crianças não conseguem nomear o que estão vivendo. Outras até tentam, mas não encontram acolhimento. Há ainda aquelas que carregam o peso da culpa, como se fossem responsáveis pelo que aconteceu.
Por isso, o Maio Laranja não é apenas uma campanha de conscientização, mas um convite à responsabilidade. De pais, responsáveis, educadores, profissionais de saúde e de toda a sociedade. Proteger uma criança não se resume a orientações pontuais, mas passa por construir um ambiente onde ela possa falar, ser ouvida e, principalmente, acreditada.
Um dos caminhos fundamentais é a educação. Ensinar, de forma adequada à idade, sobre o corpo, os limites e o direito de dizer “não” é uma forma de fortalecimento, não de exposição. Crianças informadas tendem a reconhecer situações de risco com mais clareza. Mas isso só funciona quando há adultos disponíveis para escutar sem julgamento.
Também é importante prestar atenção aos sinais. Mudanças bruscas de comportamento, medo excessivo, isolamento, queda no rendimento escolar, entre outros indícios, podem ser formas indiretas de expressão de algo que a criança não consegue dizer diretamente. Nem todo sinal indica violência, mas todo sinal merece atenção.
Outro ponto essencial é entender que denunciar é um ato de cuidado. No Brasil, o Disque 100 funciona como um canal gratuito e sigiloso para registrar suspeitas ou confirmações de violência. Muitas vezes, é a partir de uma denúncia que se torna possível interromper um ciclo de abuso.
Falar sobre o tema não significa viver em alerta constante ou medo generalizado, mas sim ampliar a consciência. É sair da ideia de que proteger é apenas vigiar, e entender que proteger também é escutar, observar e criar vínculos de confiança.
O Maio Laranja nos lembra que a infância precisa ser, antes de tudo, um espaço de cuidado e segurança. E que romper o silêncio não é tarefa de um dia ou de uma campanha, é um compromisso contínuo. Porque, quando uma criança não consegue falar, é responsabilidade do adulto aprender a ouvir.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero