Hugo PONTES*
Outro dia, pela manhã, observei o silêncio diferente de um escritório. Não era um silêncio de paz, desses que lembram biblioteca ou manhã de domingo. Era um silêncio cansado. Pessoas olhando para telas iluminadas, dedos correndo sobre teclados, olhos presos em planilhas e pensamentos talvez muito longe dali.
O rapaz da mesa ao lado sorria para todos. Educado, eficiente, pontual. “Bom dia”, “claro”, “deixa comigo”. Mas carregava nos ombros um cansaço invisível que não aparece em exames de sangue nem em radiografias. Um cansaço que nasce lentamente, entre metas impossíveis, mensagens fora do horário e a sensação permanente de nunca realizar o suficiente.
Sabemos que é frequente o discurso que aborda o assunto produtividade. Pouco se fala em humanidade.
Há empresas e instituições que exibem paredes coloridas e frases de efeito penduradas nos corredores, mas esquecem do principal: gente não é máquina. Nenhum computador trava por tristeza. Nenhum “software” sofre ansiedade antes de dormir. Nenhuma planilha sente medo de fracassar.
O curioso é que muitos trabalhadores aprenderam a esconder a própria dor como quem esconde um erro profissional. Dizem “está tudo bem” enquanto o coração acelera sem motivo. Sorriem em reuniões depois de noites inteiras sem dormir. Parecer forte o tempo inteiro é a motivação. E assim seguem ligados a tudo e distantes de deles mesmos.
Talvez o maior desafio do mundo moderno seja reaprender a ouvir. A ouvir o colega que mudou de comportamento. Prestar atenção no funcionário que anda calado demais. Escutar até o próprio corpo, que costuma avisar antes de desabar.
E, algo de grande importância e humanidade: saber o histórico de saúde daquele que trabalha junto ou perto do chefe. A verdade é simples e antiga: trabalho deveria garantir dignidade, não sofrimento físico e mental.
No fim da tarde, quando as luzes das salas do escritório começam a apagar – e cada um recolhe os documentos na gaveta – permanece no ar a pergunta silenciosa: de que adianta querer mostrar ao mundo que quem manda sou eu?
Por certo, esteja na hora de compreender que saúde mental não é luxo, fraqueza ou moda passageira. É necessidade humana. E cuidar dela, no trabalho e fora dele, é tarefa urgente nesse momento tão passageiro de demonstração de poder.
*Professor, poeta e jornalista