Hugo PONTES*
Salomão Souza,
A selva escura dos
Cristais perdidos.
Ed. do autor, Brasília, DF, 2026
É sempre uma satisfação ler poemas de Salomão Souza. Ora o poeta nos envia “A selva escura dos cristais perdidos”, obra que reafirma a maturidade poética de um autor comprometido com a palavra, a memória e a dimensão estética da literatura. Publicado em 2026, o livro apresenta uma poesia marcada pelo cotidiano e o simbólico, entre a experiência interior e a inquietação social.
O título já sugere um percurso metafórico: a “selva escura” remete à travessia existencial, evocando o caminhar pelo mundo; enquanto os “cristais perdidos” nos leva para aquilo que se fragmentou, ou seja, a inocência, a solidariedade, a utopia ou mesmo a linguagem em tempos de contradições. Salomão Sousa transforma esses elementos em matéria poética de forte densidade imagética, construindo versos que oscilam entre o lírico e a denúncia sutil das deformações humanas e políticas do presente.
A crítica tem observado que o livro mantém fidelidade a uma tradição de poesia engajada, mas sem cair no panfleto. O poeta não sacrifica a elaboração estética em nome da crítica social; ao contrário, utiliza a metáfora como instrumento de resistência. Há um constante apelo à convivência humana, à preservação da memória afetiva e ao combate contra o isolamento moral produzido pelo autoritarismo contemporâneo.
Outro aspecto relevante da obra é a valorização do cotidiano. Em muitos poemas, pequenos gestos, lembranças familiares, paisagens rurais e afetos simples tornam-se centros de gravidade poética. Essa dimensão humanista aproxima Salomão Sousa de uma linhagem de poetas brasileiros que encontram grandeza nas experiências aparentemente modestas da vida comum. O verso não busca o teatral prefere a permanência silenciosa da reflexão.
A linguagem empregada é refinada, mas acessível ao leitor. O autor demonstra domínio vocabular e sensibilidade musical, produzindo imagens de forte poder evocativo. Em diversos momentos, a poesia parece funcionar como um espaço de reconstrução ética diante da fragmentação do mundo contemporâneo. O livro transmite na ideia de que a arte e a informação aproximam as pessoas, enquanto o medo e o obscurantismo promovem a desintegração coletiva.
Assim, “A selva escura dos cristais perdidos” deve ser lida como um livro de travessia: uma obra em que a poesia atua simultaneamente como memória, resistência e esperança. Salomão Sousa reafirma sua posição entre os poetas brasileiros contemporâneos que compreendem a literatura não apenas como exercício estético, mas como forma de estar no mundo.
Registramos – do mesmo autor – o recebimento de “Certezas para as madressilvas” poesia, 2024.
*Professor, poeta e jornalista