Em tempos de aplicativos de relacionamento, curtidas e conexões rápidas, uma pergunta tem se repetido, ainda que de forma silenciosa: e se eu não for escolhido? Por trás da aparente liberdade de poder conhecer muitas pessoas, existe uma ansiedade crescente — a sensação de estar sempre sendo avaliado, comparado e, eventualmente, deixado de lado.
Nunca houve tantas possibilidades de encontro. E, ainda assim, nunca foi tão comum ouvir relatos de frustração afetiva. Conversas que não evoluem, relações que começam intensas e desaparecem de repente, vínculos que não se consolidam. No meio disso tudo, surge uma dúvida que vai além do outro: “o que há de errado comigo?”.
O medo de não ser escolhido não nasce apenas no presente. Ele costuma encontrar raízes em experiências anteriores, muitas vezes antigas, em que a pessoa se sentiu preterida, rejeitada ou insuficiente. Essas marcas nem sempre são conscientes, mas podem reaparecer em situações atuais, como se a história estivesse se repetindo com novos personagens.
Isso ajuda a entender por que algumas pessoas se envolvem com quem não demonstra interesse claro, ou insistem em relações que trazem mais insegurança do que troca real. Não se trata de falta de opção, mas de uma espécie de repetição emocional: uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de resolver algo que ficou em aberto lá atrás.
Ao mesmo tempo, o cenário atual reforça essa dinâmica. A lógica dos aplicativos, baseada em escolhas rápidas e superficiais, pode intensificar a sensação de descartabilidade. Se há sempre alguém “melhor” a um deslizar de dedo, o vínculo perde tempo de maturação. E, sem tempo, dificilmente se constrói algo mais profundo.
Diante disso, surgem estratégias de proteção. Algumas pessoas evitam se envolver de verdade, mantendo relações mais superficiais para não correr o risco de se frustrar. Outras investem demais, tentando garantir a escolha do outro a qualquer custo. Há ainda quem oscile entre os dois extremos, ora se fecha, ora se entrega intensamente, sem encontrar um meio-termo que traga segurança.
A questão é que amar não é apenas ser escolhido, mas também escolher. E isso implica reconhecer o próprio desejo, os próprios limites e aquilo que se está disposto a viver em uma relação. Quando toda a atenção está voltada para a validação do outro, corre-se o risco de perder de vista a pergunta mais importante: essa relação também me escolhe?
Talvez o desafio das relações hoje não seja a falta de opções, mas o excesso delas sem profundidade. E, no meio desse cenário, aprender a sustentar um vínculo, com suas imperfeições, pausas e construções, pode ser um caminho mais raro, porém mais consistente.
No fim, ser escolhido importa, mas não pode ser o único critério. Porque relações que se mantêm apenas pelo medo da rejeição tendem a reforçar exatamente aquilo que se tenta evitar. Já aquelas que se constroem a partir de um encontro mais real, ainda que imperfeito, têm mais chances de sair da lógica da comparação e entrar no campo da presença.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero