Hugo PONTES*
Há livros que contam uma história. Outros ajudam a contar a história de um povo. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, é um desses raros casos. Setenta anos após o lançamento da primeira edição , em 1956, o romance continua atual e revela que o sertão é muito mais do que um lugar no mapa: é um modo de viver, de falar e de visualizar o mundo.
Para nós, que vivemos no interior e conhecemos o valor da terra, da família, das tradições e da palavra dada, a obra de Guimarães Rosa desperta um sentimento especial. O autor transformou a paisagem do sertão mineiro em cenário universal, mostrando que as grandes questões da vida também nascem entre veredas, rios, fazendas e estradas de chão.
Ao acompanhar as lembranças de Riobaldo, o leitor encontra personagens que enfrentam desafios muito parecidos com aqueles vividos por tantas comunidades do interior: as dificuldades da sobrevivência, os conflitos humanos, a força da amizade, o peso das escolhas e a esperança de dias melhores. É justamente essa humanidade que faz do romance uma obra sempre atual.
Outro aspecto admirável é a valorização da nossa maneira de falar. Guimarães Rosa ouviu atentamente o povo sertanejo e levou para a literatura palavras, expressões e modos de dizer que muitos consideravam simples demais para os livros. Ele provou o contrário: a linguagem do interior é rica, criativa e cheia de poesia. Com esse registro, preservou uma parte importante da cultura brasileira.
Numa época em que a tecnologia aproxima pessoas, mas muitas vezes afasta as novas gerações de suas raízes, revisitar Grande Sertão: Veredas é também um convite para conhecer melhor nossa história e nossa identidade. Valorizar a cultura regional não significa viver preso ao passado, mas compreender de onde viemos para saber para onde queremos seguir.
Nossas escolas, bibliotecas, universidades e instituições culturais têm um papel importante nesse contexto. Incentivar a leitura de Guimarães Rosa é estimular o respeito pela Literatura nacional e pelo patrimônio cultural do sertão, que continua inspirando artistas, pesquisadores e leitores em todo o mundo.
O sertão descrito por Rosa não pertence apenas a Minas Gerais. Ele vive em cada comunidade do interior que preserva sua memória, seus costumes e a sua capacidade de enfrentar as dificuldades com coragem e dignidade. É um sertão que resiste às mudanças sem perder a sua essência.
Ler Grande Sertão: Veredas é redescobrir a riqueza da cultura brasileira e reconhecer que as histórias do interior merecem ocupar um lugar de destaque. Afinal, como o próprio Guimarães Rosa nos ensina, as maiores travessias não acontecem apenas pelos caminhos da terra, mas também dentro de cada um de nós.
*Professor, poeta e jornalista