Em uma época marcada pela velocidade, pela atualização constante e pela sensação de que tudo envelhece rapidamente, há algo que parece caminhar na contramão do nosso tempo: a experiência acumulada de quem viveu muito. No Dia dos Avós, celebrado em 26 de julho, vale refletir sobre o lugar que essas figuras ocupam não apenas nas famílias, mas também na construção de quem somos.
Nem todos tiveram uma convivência próxima com os avós. Alguns carregam lembranças afetuosas de tardes demoradas, receitas especiais e histórias repetidas inúmeras vezes. Outros conheceram relações mais distantes ou até marcadas por conflitos. Ainda assim, a figura dos avós ultrapassa a pessoa em si, remete à ideia de continuidade, de pertencimento e de ligação com uma história que começou antes de nós.
Vivemos em uma cultura que frequentemente valoriza o novo. Novas tecnologias, novos hábitos, novas formas de viver e de se relacionar. Nesse cenário, a velhice muitas vezes é vista como algo a ser evitado, como se envelhecer significasse perder valor. No entanto, basta uma conversa mais atenta com alguém que atravessou diferentes fases da vida para perceber que existem conhecimentos que não podem ser adquiridos em pesquisas rápidas na internet ou em vídeos de poucos segundos.
Os avós costumam ser testemunhas de transformações profundas. Viram cidades crescerem, costumes mudarem, famílias se reorganizarem. Carregam memórias de tempos em que as relações aconteciam em outro ritmo, quando as notícias demoravam mais para chegar e os encontros tinham mais espaço para acontecer. Não se trata de idealizar o passado nem de afirmar que antes tudo era melhor. Trata-se de reconhecer que cada geração guarda experiências que podem ampliar nossa compreensão sobre a vida.
Existe algo particularmente valioso nas histórias familiares. Quando ouvimos sobre os desafios enfrentados pelos nossos pais, avós e bisavós, começamos a perceber que nossa trajetória não surgiu do nada. Muitas vezes, dificuldades, sonhos, valores e até certos modos de agir atravessam gerações sem que nos demos conta. Conhecer essas histórias ajuda a compreender melhor nossas próprias escolhas e conflitos.
Ao mesmo tempo, os avós também ensinam sobre as limitações humanas. O envelhecimento traz marcas no corpo, mudanças na rotina e novas formas de lidar com o tempo. Em uma sociedade que valoriza desempenho e produtividade, a convivência com pessoas mais velhas pode nos lembrar de algo essencial: a vida não é feita apenas de resultados, mas também de vínculos, lembranças e afetos construídos ao longo do caminho.
Talvez uma das maiores lições que os avós oferecem seja justamente a da permanência. Em meio a relações cada vez mais rápidas e descartáveis, eles frequentemente representam a possibilidade de continuidade, de memória e de enraizamento. São aqueles que guardam fotografias antigas, contam histórias que ninguém mais lembra e ajudam a manter vivas partes da nossa identidade.
Neste Dia dos Avós, mais do que homenagens e fotografias nas redes sociais, talvez possamos nos permitir algo simples, como o escutar. Perguntar sobre suas histórias, suas alegrias, seus medos e suas experiências. Porque, muitas vezes, aquilo que parece apenas uma lembrança antiga é também uma forma de transmitir algo que continua fazendo sentido no presente.
Em um mundo que valoriza tanto a novidade, ouvir quem já percorreu um longo caminho pode ser uma das formas mais ricas de compreender não apenas o passado, mas também a nós mesmos.
Veruska Matavelli Prata Maziero
Psicóloga- CRP 04/79749
Instagram: @psiveruskamaziero