Hugo PONTES*
Abro o celular e, antes mesmo do café esfriar, o mundo já está em pedaços. Uma guerra em tempo real, uma opinião inflamável, um meme engraçado, uma tragédia ignorada dois segundos depois. Tudo junto, tudo misturado – e nada realmente junto. Vivemos na era da ligação, ou melhor, “conexão” permanente, mas com a estranha sensação de que cada um fala sozinho, para um público invisível que pensa exatamente igual.
As pessoas se agrupam em bolhas como quem escolhe mesas em um restaurante e afirma: – aqui só senta quem concorda comigo.
Discordar virou ofensa, escutar virou perda de tempo. O diálogo, esse velho exercício humano, parece ter sido arquivado junto com o hábito de esperar a vez de falar. Não é raro ver amizades desfeitas, famílias divididas e silêncios constrangedores por causa de opiniões que, no fundo, nem sempre são tão sólidas quanto parecem.
O mundo fragmentado também está dentro de nós. Somos muitos ao mesmo tempo, ou seja, profissionais eficientes, cidadãos cansados, versões editadas nas redes sociais. Pulamos de notícia em notícia, de crise em crise, tentando dar conta de tudo e não dando conta de quase nada. Falta tempo para pensar, sobra urgência para opinar. E assim seguimos, inteiros por fora, partidos por dentro.
Talvez o desafio não seja colar os cacos do mundo – tarefa grande demais – mas aprender a lidar com esses fragmentos. Ouvir mais, simplificar menos, desacelerar quando possível.
Em tempos de fragmentação, o gesto mais ousado pode ser simples: escutar e aceitar que o outro não é um inimigo, apenas alguém vendo o mundo por outro ângulo. E, às vezes, é por esse ângulo que falta um pedaço do nosso.
*Professor, poeta e jornalista