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Pobres governos, pobre educação

Data da Publicação:

07/01/2023

Hugo Pontes
Professor, poeta
e jornalista

Historicamente a educação formal no Brasil iniciou, não sob a forma de transmissão de conhecimento, mas como catequese e doutrina para se implantar – no novo mundo – a religião católica.
De lá para cá, ou seja, de 1500 para os anos 2000 – a bem dizer – pouca coisa mudou, uma vez que se os portugueses, nossos colonizadores, não se preocuparam com a educação, e tão somente com a extração (da madeira, do ouro, do diamante) os seus ascendentes e herdeiros também não tiveram o cuidado em alicerçar a colônia em modelo de prosperidade e desenvolvimento baseados no saber.
Do discurso à prática, a distância é bem maior do que os nossos 500 anos de existência. Vivemos aos saltos e ao sabor de políticas públicas niveladas aos interesses dos governantes de plantão e das situações de momento de uma entidade etérea que leva o nome genérico de “mercado”.
E se tudo isso não bastasse, o “mercado” e os políticos mancomunados nos fazem crer que o Brasil tem jeito.
É de Carlos Drummond de Andrade, no poema Resíduo o verso que diz: “De tudo ficou um pouco.”
E para nós sobram as migalhas do banquete que os países ricos promovem, mesmo diante da crise.
E por que não recordar a frase de uma amiga francesa, Nicole Meunier, que me disse certa feita: “Você está na Alsácia-Lorena, celeiro e orgulho da França.”
Diriam para nós, os dirigentes universais: “Vocês são o Brasil, celeiro do mundo.” Sim, porque somos e seremos sempre os maiores fornecedores de “commodities” para o mundo: petróleo, minérios, grãos, bois, vacas, frangos, ovos e madeira da Amazônia. E não devemos ter orgulho disso, pois poderíamos ser muito mais.
Na verdade, precisamos ter o que poderíamos chamar de “Vergonha Interna” e para mudar esse quadro podemos citar Eduardo Gianetti, economista e administrador: “precisamos investir na educação, pois o cidadão qualificado gera sua própria renda e não precisa das migalhas que caem dos bolsos e bolsas isso ou aquilo”.
E, ainda, para mudar o quadro, é necessário que as nossas cidades – todas – apliquem com esmero e honestidade o dinheiro que é exclusivo para a educação. Para tanto, é necessário que tenhamos dirigentes lúcidos, que conheçam e se empenhem em ver que a educação não é moeda de troca e não é catequese – não estamos em 1500.
A sociedade precisa de dirigentes que saibam realizar mudanças e não meras trocas de postos de comando, como se estivessem numa guarita de um condomínio que continua sem gás.
Nessa cadeia da educação formal, precisamos de dirigentes que pensem a educação com o cérebro, com conhecimento e a atenção voltada para uma política que contemple três princípios: o filosófico, o pedagógico e o didático. Senso comum e chavões de efeito não mudam a realidade.
Caso isso não seja levado em conta, dificilmente um sistema educacional terá condições de oferecer à população, que paga a conta com seu trabalho e seus impostos, uma perspectiva de desenvolvimento em educação e via educação. Estudo da Confederação Nacional da Indústria, que reúne as empresas do setor, e que interessadas nos problemas, revelam que o maior problema da educação no Brasil é a falta de motivação dos professores, pelos baixos salários. Realidade pura e incontestável.
Se até as sobras do dinheiro do FUNDEB – Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica – que deveriam de ser passado para os professores, as prefeituras sonegam, o que pensar dos dirigentes municipais que cometem essa atrocidade.
Não será culpando os educadores que estão em sala de aula – sendo mal-remunerados e tendo que trabalhar em dois turnos, além de serem obrigados a preparar com seu próprio dinheiro material didático para levar para os alunos – que os dirigentes, sabidamente despreparados e com discursos arcaicos na ponta da língua, conseguirão enganar por muito tempo.
Por certo esses dirigentes tornar-se-ão nomes de rua ou de escola, mas não livrarão suas carcaças do registro histórico de época, dos que têm coragem de escrever e dizer o quão danosos foram para a educação.
E o leitor, eleitor e contribuinte há de perguntar e concluir:
Nunca seremos um país desenvolvido, tendo – por certo – gestores públicos plenos de indigência mental.

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