O Brasil alcançou em 2024 uma marca impressionante: 97,3% das latinhas de alumínio comercializadas foram recicladas, segundo dados divulgados pela Recicla Latas. Esse número mantém o país, pelo 16º ano consecutivo, entre os líderes mundiais em reaproveitamento, com índices acima de 96%. Em 2022, inclusive, o patamar chegou a 100,1%, quando se reciclou mais latinhas do que as vendidas no ano, resultado de estoques que retornaram ao ciclo produtivo.
Por trás desses números, há um esforço coletivo que vai muito além da indústria. São os catadores, em sua maioria em situação de vulnerabilidade social, que sustentam essa engrenagem. A cada latinha recolhida nas ruas, nos lixões ou em cooperativas, eles não apenas evitam que toneladas de resíduos sejam descartadas de forma incorreta, como também contribuem para que o alumínio, material infinitamente reciclável, volte ao mercado em questão de semanas.
O contraste, porém, salta aos olhos: enquanto os índices colocam o Brasil como exemplo global, a realidade de quem garante esses resultados é de sobrevivência precária. Falta reconhecimento, remuneração justa e políticas públicas consistentes que transformem o trabalho desses agentes ambientais em cidadania digna.
Reciclar latinhas é mais do que reduzir impactos ambientais e economizar energia — é também valorizar vidas. O recorde histórico, embora motivo de orgulho nacional, precisa ser acompanhado de uma mudança social: transformar o trabalho invisível dos catadores em profissão reconhecida, com direitos, condições adequadas e perspectiva de futuro.
O Brasil recicla muito. Mas ainda precisa aprender a devolver, em justiça social, o mesmo valor que recupera em alumínio.