Os números revelados pelo estudo Governança Criminal na América Latina: Prevalência e Correlatos são alarmantes e deveriam provocar uma reflexão nacional urgente. Um em cada quatro brasileiros vive sob regras impostas por organizações criminosas. Não se trata apenas de estatística: significa que cerca de 50 milhões de pessoas, dentro do território nacional, estão submetidas ao domínio de facções que ditam normas, controlam territórios e influenciam a vida cotidiana de comunidades inteiras.
Esse dado coloca o Brasil na liderança indesejável do ranking latino-americano de países mais afetados pelo poder paralelo, à frente de nações como Costa Rica, Honduras, Equador e Colômbia. Enquanto, na média regional, 14% da população sofre esse tipo de influência, no Brasil o fenômeno já atinge 25% da sociedade. É um quarto da população vivendo em “Estados dentro do Estado”.
O que esses números expõem, de forma cruel, é a falência das instituições públicas em garantir presença e autoridade nos territórios mais vulneráveis. Onde o Estado é ausente, surgem as facções para ocupar esse espaço — oferecendo “serviços” como segurança, mediação de conflitos, assistência material e até regras de convivência. Mas esse domínio tem um custo altíssimo: a naturalização da violência, o fortalecimento da economia ilegal e a corrosão da cidadania.
Talvez o aspecto mais preocupante seja a tendência de naturalizar essa realidade. Crianças crescem sob a lógica imposta pelo crime, jovens têm sua mobilidade social restrita e comunidades inteiras perdem a esperança de ver a lei e a justiça prevalecerem. O resultado é uma espiral perversa em que o poder público perde legitimidade e o crime ganha status de “autoridade”.