O dado revelado pela pesquisa do Instituto Cidades Sustentáveis, em parceria com a Ipsos-Ipec e a Fundação Volkswagen, é um retrato nítido da realidade econômica brasileira: 56% dos moradores de dez capitais vivem a necessidade de recorrer a trabalhos extras para complementar a renda.
Essa estatística vai além de números frios. Ela mostra a dificuldade das famílias em equilibrar o orçamento, em um país onde o custo de vida sobe mais rápido do que os salários e onde o mercado formal de trabalho não absorve todos que precisam de estabilidade. A chamada “economia do bico” se fortalece, revelando a criatividade e a resiliência da população diante da adversidade.
Entre as atividades mais comuns, destacam-se os serviços gerais – faxina, pequenos reparos, jardinagem e o popular “marido de aluguel” – que representam 17% das escolhas. Logo depois aparece a venda de roupas e artigos usados (12%), seguida por produção de alimentos caseiros, revenda de cosméticos, trabalhos de motorista ou entregador por aplicativo, atividades manuais e serviços de beleza, que variam entre 9% e 7% das respostas.
Essas ocupações, muitas vezes informais, são não apenas uma saída financeira, mas também um reflexo das lacunas estruturais do mercado de trabalho. Em alguns casos, representam a única chance de sobrevivência.
Ainda que demonstrem força empreendedora, essas alternativas escondem uma fragilidade: a ausência de direitos trabalhistas, proteção previdenciária e segurança mínima. A dependência crescente de trabalhos temporários ou autônomos reforça a desigualdade e expõe milhões de brasileiros à vulnerabilidade econômica.
O levantamento deve servir de alerta: não se trata apenas de complementar renda, mas de reconhecer que o mercado formal já não garante sozinho a sustentabilidade das famílias. Cabe ao poder público pensar em políticas de apoio, capacitação e formalização, ao mesmo tempo em que a sociedade valoriza e reconhece essas iniciativas que movimentam a economia local.
Em resumo, o Brasil convive com uma contradição: a criatividade e o esforço de quem transforma necessidade em oportunidade, e a urgência de estruturar um cenário em que o trabalho extra não seja um fardo, mas sim uma opção de crescimento.