Hugo PONTES*
Na repartição, o relógio parece andar de um jeito diferente. Não é mais lento nem mais rápido – é seletivo. Corre quando o chefe está de bom humor e arrasta-se quando ele decide que alguém precisa “aprender”. Hoje, por exemplo, o alvo era o Adamastor.
Marcelo sempre foi daqueles servidores discretos, que chegam antes, saem depois e raramente entram em conflito. Talvez por isso mesmo tenha sido escolhido. Não por incompetência, mas pelo silêncio que é quase um convite.
– De novo esse relatório incompleto? – Diz o chefe, alto o suficiente para a sala inteira ouvir, embora estivesse com o documento perfeitamente revisado nas mãos.
Ninguém levantou os olhos. Aprenderam com o tempo que olhar é se envolver. E se envolver é perigoso. E, como diria Guimarães Rosa: “Viver é perigoso”. O constrangimento, naquele lugar, é um espetáculo sem plateia declarada, mas com vários espectadores atentos.
Adamastor tentou explicar, com cuidado, apontando dados, prazos, e-mails anteriores. Mas explicações são inúteis quando a intenção não é esclarecer, mas marcar território.
– Você precisa ser mais proativo, falou o chefe, interrompendo.
Curioso, pensou Adamastor, porque na semana passada havia sido repreendido justamente por agir por iniciativa própria.
A contradição não era um erro. Era método.
Ao lado, Auzenda digitava sem parar. Não havia nada urgente, mas o barulho das teclas funcionava como escudo. Já Altamiro, mais experiente, mantinha os olhos fixos no monitor desligado. Sabia que aquilo passaria – sempre passa, mas deixa marcas invisíveis, difíceis de registrar em memorandos, ou relatórios, ou ofícios.
No funcionalismo, dizem, há estabilidade. Mas pouco se fala da instabilidade emocional que pode habitar os corredores. Não está nos editais, nem nos planos de carreira. Surge nos gestos pequenos da ironia diária, no isolamento estratégico, na reunião em que todos são convocados – menos dois ou um.
Quando a cena terminou, o chefe recolheu os papéis com um suspiro teatral e voltou para sua sala. Adamastor sentou-se devagar. Ninguém comentou. O silêncio se fez, novamente, como sempre. Minutos depois, Auzenda se inclinou discretamente:
– Está tudo certo com você? Marcelo assentiu. Não estava, mas também não saberia explicar. Como traduzir o desgaste em ser constantemente diminuído sem que isso deixe prova concreta? Como denunciar algo que se disfarça de “exigência”, “cobrança” ou suposta liderança?
O expediente seguiu. Protocolos foram abertos, e-mails enviados, carimbos batidos. A máquina pública não para – ainda que, por dentro, algumas de suas peças estejam sendo lentamente corroídas.
No final do dia, Adamastor desligou o computador e olhou para o relógio. Agora ele parecia normal. Ou talvez fosse apenas o sentimento de alívio por sair dali.
No caminho para casa, ficou pensando que o assédio moral não grita. Ele sussurra, repete, insiste. E, quando a gente percebe, já ocupou espaço demais na rotina, no humor, na própria ideia de trabalho.
No dia seguinte, tudo recomeça. O relógio, pontual, estará lá. E o silêncio também. A esperança na Justiça era: “vai passar”.
*Professor, poeta e jornalista