Naquela tarde de outono, sob o ar-condicionado gelado, o recrutador me perguntou:
— O que te levou a pedir demissão do seu último emprego?
— Esgotamento social.
Dias depois, recebi um feedback negativo e sarcástico.
Anos se passaram, e eu continuei escutando respostas sarcásticas e afirmações que destoam das respostas padrão, vindas de todos os nichos possíveis e inimagináveis. Sim, o esgotamento social suga a nossa energia. O esbanjamento de simpatia, por vezes forçada, me deixa exaurida.
Aquilo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chamou de sociedade líquida — relações efêmeras, a facilidade com que conexões são formadas e desfeitas (amizades, relacionamentos e laços de trabalho) — gera um esforço de interação constante e exaustivo.
Essa necessidade desenfreada de “performance” constante, tanto na vida profissional quanto na familiar e social, incluindo as redes sociais, leva a um esgotamento mental. O indivíduo torna-se carrasco de si mesmo, buscando desempenho o tempo todo. Isso exacerba o narcisismo e o individualismo, o que leva a relações utilitaristas, nas quais o outro é visto mais por sua utilidade do que pela troca genuína.
O esgotamento é um sintoma da necessidade de adaptação a um mundo onde valores, instituições e relações são fluidos, substituíveis e efêmeros.
Dito isso, eu sempre solto essa lamentação do bordão clássico do personagem Hardy: “Oh, céus! Oh, vida! Quão desafiador é carregar o meu cérebro primitivo na pós-modernidade”.
Embora o cérebro humano mantenha estruturas primitivas (sistema límbico/reptiliano), focadas na sobrevivência e na gratificação imediata, isso gera estresse, ansiedade e comportamento impulsivo no mundo moderno. Essa “selva tecnológica” de demandas constantes entra em conflito com nossa biologia ancestral, que busca economizar energia e evitar riscos, resultando em déficit de adaptação.
Diante dessa contradição, já que nosso cérebro evoluiu para sobreviver na selva, estruturas como o sistema límbico priorizam emoções e reações rápidas a ameaças. As ameaças modernas — como críticas, principalmente nas redes sociais, prazos de trabalho e incertezas financeiras — são interpretadas pelo cérebro primitivo com a mesma intensidade de um perigo físico real. O que nos é proposto é adaptar-se, e, através da neuroplasticidade, tudo isso é possível.
A disparidade entre a evolução biológica lenta e a velocidade da tecnologia gera exaustão mental, ansiedade e dificuldades de foco.
Tentar mergulhar em águas rasas é como ter passado a vida sem ler, entender e aplicar a alegoria da caverna de Platão.
Se as perguntas forem padrão, as respostas não devem ser padronizadas.
Nos três últimos anos, enfrentei dois AVCs isquêmicos. Essa última lesão no cérebro danificou o meu lobo temporal, causando sequelas significativas, afetando principalmente a memória, a compreensão da linguagem, a perda de memórias antigas e epilepsia do lobo temporal — que pode causar perda de consciência, entre outros sintomas.
Hoje, olhando para tudo isso, eu me sinto emocionalmente compensada pelas minhas lutas. Este relato é apenas para conectar uma ideia desafiadora: a fase de muita informação e pouca formação. Nem tudo o que lemos (consumimos) sobre “neuroplasticidade” não pode ser apenas frase motivacional.
Há um ano atrás, eu não falava, não reconhecia objetos, não conseguia ler um rótulo de margarina, perdi brutalmente a minha identidade. Eu chorava copiosamente, olhava para tudo o que eu mais gostava e repudiava. Todos os dias, eu mantinha uma rotina de desamor. E no de repente eu estava criando conexões neurais a partir da filosofia de Friedrich Nietzsche: “E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para você”.
E foi assim que me apaixonei pelo meu cérebro danificado. O cérebro desorganizado causa sobrecarga e reduz a capacidade de concluir tarefas, gerir o tempo e manter o foco. Desde então, o raio de sol no final da tarde, enquanto tomo uma xícara de café fresco, o folhear de um livro novo, o recitar de um poema — todos os meus devaneios foram embora e no súbito a força da adaptação ocupou esse espaço e sua relevância poética.
O meu processo de reabilitação ainda é lento, mas ressignifiquei a minha identidade e comecei a pensar sobre tudo o que eu pensava (metacognição) me redescobri conforme fui me organizando e estou a me adaptar todos os dias os ciclos sociais ainda me deixam exaurida, mas me adaptam muito melhor e bem mais rápido. Como diria minha filósofa favorita (minha saudosa, mãe) “ Há males, que vêm para o bem”!
As pessoas quase nunca estão preparadas para respostas que fogem das obviedades, porém a vida nos dá feedback o tempo todo. E, desde aquele feedback icônico do processo seletivo, ela também me entregou um retorno claro: o “esgotamento social” não é fraqueza, mas incompatibilidade entre quem você é e o tipo de dinâmica que você está sustentando. Este texto não serve apenas para entrevistas de emprego.
Por fim, é impulso elétrico em um ínfimo momento: dor e amor, arte, política, cultura, fome e fé, equilíbrio e loucura — tudo ao mesmo tempo, em um só processamento.
Flávia Couto
AVCista, 46 anos.