Hugo PONTES*
Há quem acredite que o tempo funciona como borracha, dessas que apagam até o traço mais escuro do lápis. Engano. O tempo não desaparece. No máximo, adormece. E mesmo adormecido ele continua flutuando, teimoso, deslizando sobre o papel da existência com sulcos que nenhuma pressa consegue esconder.
Vemos isso nas cidades. Casas antigas e igrejas resistem entre prédios modernos, como se sussurrassem memórias que o concreto novo não consegue calar nem esconder. Uma janela torta, uma porta gasta, um muro rabiscado, uma placa – tudo fala. E fala muito. Quem escuta com atenção percebe que cada detalhe carrega um pedaço de uma vida e vidas que já foram presentes e participantes.
Mas não são só os lugares que guardam histórias. As pessoas também. Cada cicatriz, cada silêncio e cada riso fora de hora tem origem em algo vivido. E, por mais que alguém tente esquecer, há sempre um gesto, uma imagem, um cheiro ou uma música que traz tudo de volta, como se o passado nunca tivesse ido embora de verdade.
Curioso é que, às vezes, tentamos apagar aquilo que mais nos formou. Queremos esquecer erros, dores, momentos difíceis. No entanto, são justamente essas partes que dão contornos ao que somos. Tirar isso seria como arrancar as páginas de um livro e esperar que a história ainda tenha sentido.
Não se apaga a história. Nem a nossa, nem a do mundo. O que podemos fazer é aprender a lê-la melhor. Entender os rabiscos, aceitar as falhas, reconhecer os capítulos difíceis. Porque, no fim das contas, não é sobre ter uma história perfeita. É sobre ter uma história que, mesmo imperfeita, continua sendo contada.
E talvez seja isso que realmente importa: seguir escrevendo, sabendo que cada linha, boa ou ruim, vai permanecer. Não como um peso, mas como prova de que existimos, sentimos e seguimos – apesar de tudo e de todos.
*Professor, poeta e jornalista